Rota 2012: "As saudades que eu tinha de uma malhada..."

Dezenas de emigrantes, gentes da freguesia e curiosos de outros concelhos assistiram esta tarde (10 agosto) à recriação de uma malhada tradicional do Centeio, que aconteceu na eira da mítica Casa da Pena, no lugar de Zebreiro, em Aboim da Nóbrega (Vila Verde). Foi um momento saudosista e emocionante para a maioria, já que é uma prática carismática que vai rareando nesta aldeia agrícola. A malhada do centeio que aconteceu hoje é uma atividade da programação turístico-cultural Na Rota das Colheitas, que o Município de Vila Verde e a Proviver EEM dinamizam com as juntas de freguesia e associações locais.



Gentes reunidas em torno da eira, as mulheres terminam de espalhar os molhos de centeio e os homens preparam os malhos. Sem aviso prévio, os primeiros a aprontar os instrumentos começam a treina-los na palha. Começa um, segue-se outro, junta-se o terceiro e prontos que estavam, alinham-se numa ponta da eira, duas filas de seis homens cada, frente a frente. Começa a 'batalha' e o ruído das vozes alegres dos populares dá lugar ao silêncio. 

Este é um ritual solene, como um desporto a que se assiste ao vivo. Com o tempo e a intensidade das estocadas a aumentar, vai aumentando também a exicitação dos presentes a assistir, aferindo qual é a 'banda' que ganha. "É a banda de cá", dizia um jovem ao outro, a seu lado.

"Antigamente isto era muito mais duro. Começava-se às 9h da manhã e só às 7h da tarde é que se parava", foi assim que José Rocha, mais conhecido no Lugar de Zebreiro por 'Zé da Rita' começou por falar de mais uma malhada em que participava. "Chegávamos a fazer 120 'caminhos' (voltas) de uma só vez. Não é como agora que fazem duas e param", comentou.

As malhada do centeio, para este emigrante da Suiça, não têm segredos. Está-lhe na genética familiar, ele que é descendente de três gerações de nobreguenses. "Comecei a participar em malhadas desde os cinco ou seis anos. O meu avó era 'doente' por isto. Antigamente fazia-se por necessidade. Agora faz-se por festa", acrescentou, satisfeito. 'Zé da Rita' era o mais 'castiço' do grupo, com a sua túnica de linho branco e chapeu de palha ponteagudo, 'à mariachi'.

Também é descendente da família "que era dona de meia aldeia", onde está sita a Casa da Pena, cenário desta malhada, no supé da freguesia. "Era num tempo em que quem tinha mais terras era quem mandava e onde os valores eram diferentes. Pagava-se o trabalho com um prato de comida e as pessoas ficavam assim satisfeitas. Agora é tudo gerido pelo dinheiro", desabafou o 'filho da terra'. A herdade imensa foi retalhada pela família: "Dois irmãos, com nove filhos... foi tudo repartido por eles, inclusive esta Casa da Pena", explicou-nos. "Ainda assim continua tudo na família, por isso continuam a ser poderosos", acrescentou.

O cheiro a centeio pairava no ar, assim como o pó característico, gerado pelas 'sovas' na palha. Rosa do Carmo habituou-se toda a vida a isto, "a cortar e a trazer o centeio para as eiras e a malhar!", um trabalho que é eminentemente masculino.

"Era um trabalho muito duro, era... Demorava um dia inteiro e era o centeio de uma só pessoa. Podiamos levar uma semana ou mais, todos os dias, a malharmos o centeio de todos do Lugar, porque nos ajudavamos uns aos outros", recorda Rosa, lembrando a generosidade e entreajuda das gentes da aldeia.

A ela pertence a erva malhada nesta tarde. "É toda minha. Era para ir para a malhadeira, que é mais rápida e onde a semente sai limpinha. Mas pediram-me para ser usada nesta malhada e eu disse que sim", explicou. O trabalho humano é mais demorado, duro e tem várias fases que a mecanização ultrapassa de uma só vez. "Agora tem que se apartar a palha, juntar as semente e limpá-las. Como? Com sopro", detalhou a agricultora, antes de voltar à eira para virar novamente os fardos, depois de mais uns 'caminhos' feitos pelos malhadores.

Nesta malhada tradicional participou também o presidente da Junta de Freguesia de Aboim da Nóbrega, João Fernandes, o anfitrião da atividade. Foram servidos vinho verde tinto, pataniscas e bolinhos de bacalhau, junto com broa e água fresca. A vereadora da cultura, educação e ação social, Júlia Fernandes mostrava-se verdadeiramente encantada com a prática, ela que é uma entusiasta e defensora da ruralidade.

"Este é um trabalho árduo, muito físico, mas nota-se nas suas expressões o gozo e a alegria com que o fazem", referiu a responsável municipal pelo pelouro da cultura. "Aqui convive-se, trocam-se comentários e sorrisos com espontaneidade. Ainda há pouco uma senhora dizia 'Ah! Cheira mesmo a centeio!' e é esta a beleza do contacto com a tradição pura, o trazer as pessoas a cenários reais, poderem assistir e participar em práticas reais", sintetizou, reforçando a intenção de, com esta programação turístico-cultural que o Município de Vila Verde, junto com a Proviver EEM e parceiros locais promove, querer tornar Vila Verde uma destino turístico de excelência.

"Sabemos que são estas práticas que mais atraem as atenções de turistas, emigrantes, curiosos das proximidades e esta é a primeira apenas da nossa agenda. Seguem-se a espadelada do Linho em Marrancos, a desfolhada do milho, a vindima e pisada de uvas... e em todas esperamos ter esta receptividade e ver a alegria e emoção nos rostos de quem assiste e participa", conclui a vereadora.

FP