Rota 2012: No meio do Meloal...

VILA VERDE viva! esteve na tarde de sábado no Arraial Minhoto, em Soutelo, e procurou ir ao encontro, literalmente, da essência desta festa, que homenageia o fruto mais relevante desta época do ano, nesta freguesia vilaverdense: o Melão Casca de Carvalho! Por outras palavras, estivemos no meio de um meloal!




O presidente da Junta de Soutelo, Filipe Silva, levou-nos a conhecer um dos melhores produtores de melões de Soutelo, João Silva, com quem estivemos à conversa no meloal que mantém, com três extensas faixas, cada uma com dois carreiros de melões, que plantou a 25 de Abril. "Este ano, o clima tem estado caprichoso", observa, "e por isso a produção anda irregular".

Para produzir melões com qualidade, contou-nos, é preciso alguns cuidados, por exemplo, "a terra não pode ter melões durante 9 anos. Eu deixei esta terra repousar 10. No ano passado tive produção ali mais abaixo". Outros fatores que influenciam é a rega, "que deve ser controlada. Se um meloal leva água a mais, o melão perde qualidade e fica a saber a água", revelou o produtor. "Tem que deixar-se o melão ficar com 'sede' para puxar pelo sabor", acrescentou ainda.

Depois há outros cuidados, como 'a comida' da terra, e a influência do clima. Noites orvalhadas como as que temos tido não abonam nada a favor de uma produção de qualidade, deu-nos a entender o Sr. João. "Por isso uso uma rede, para climatizar melhor e atenuar estas diferenças, recriando um ambiente tipo o de estufa", revelou-nos. Por outro lado, a terra vai ganhando ervas em torno da sementeira e João Silva não as arranca. "É uma forma de proteger o fruto do calor intenso como aqueles dias que aí vieram", continua o agricultor.

O conhecimento empírico que compreende a lavoura e passa de geração em geração, vai se adquirindo às custas de muito engenho e criatividade, encerrando o grande fascínio da ruralidade. "Esta terra está com 'fome'", confessou João Silva. "às vezes deitou-me a pensar como é que a hei-de enriquecer. Se não há possibilidades para 10 sacos de adubo, deito cinco e o restante 'alimento' compenso, por exemplo, com a plantação de uma leguminosa, como o tremoceiro, para lhe dar substrato", revelou-nos o agricultor, levantando o 'véu' sobre os seus segredos.

Voltando ao Melão Casca de Carvalho, a sementeira faz-se pela terceira semana de Abril e, se as coisas não correrem mal, "100 dias depois já temos melões". "Desde a formação do melão, como uma bolinha de pelo, espera-se 40 dias até que o melão ganhe tamanho e esteja pronto a colher. Mas nem sempre é assim e temos que estar sempre atentos. Se for como este ano, temos que andar sempre em cima deles", referiu o sr. João acompanhado do seu 'medidor', um canivete com que bate na casca do melão, deduzindo a sua qualidade pelo som que reproduz.

Os rasgos na casca, como se esta gretasse vai adquirindo já na parte final, "quando atinge o peso de três ou quatros quilos". "Só depois de 'encascar' é que lhe damos a volta para ele apanhar o sol pelo todo", esmiuça, para que a casca fique com um aspeto uniforme e não ganhe o 'sabor da terra' ou a podre, pelo excesso de humidade.

E aquele acabamento picante no sabor? "Ah isso depende dos adubos e da terra onde está a sementeira", releva o produtor, "acaba por ser uma lotaria". Fica assim um dos mistérios desta cultura por desvendar...

Os valores da unidade "são os mesmos praticados há dois ou três anos, ou seja, cinco euros o quilo. "Tenho aqui exemplares para custar 35 euros!", acrescentou o produtor de Soutelo, que desde 1988 se dedica a cultivar este fruto.

Muitos consumidores deslocam-se por esta altura a Soutelo, à procura dos produtores e vendedores, propositadamente para comprar melões. "Muita gente já sabe onde eu vivo ou vai perguntando, e as pessoas vão lhes dizendo onde podem comprar", explica João Silva, que não fecha as portas a ninguém.

João Gonçalves não é de Soutelo, mas da freguesia de Coucieiro, e encontramo-lo à beira da estrada, com banca montada, perto de mais dois conhecidos da freguesia, a vender melões. Sabe que para vender o produto que poduz há 25 anos tem mesmo que ser em Soutelo, junto à estrada, ao lado do Santuário do Alívio, pois é lá que as pessoas param as viaturas para comprar o fruto e às vezes levá-lo para longe. "Ainda ontem vendi três melões a um senhor que veio de Guimarães de propósito".

Este produtor diz que por causa do clima "manhoso", este ano tem "menos produto mas de melhor qualidade que no ano passado". "Este ano tenho a certeza que vou ter produção até setembro, a acabar as romarias, e se calhar até mais tarde. Mas depois dessa altura o melão já não é tão bom e as pessoas também deixam de procurar. Esta é que é a altura de o vender", salientou João Gonçalves.

Em média um bom melão tem entre três a quatro quilos. "Os de seis e sete quilos são mais raros, mas vão logo", descreve. O fruto é tão apreciado nas redondezas que "o campo não pode ficar longe de casa, por causa da roubalheira", acrescenta o produtor de Coucieiro.

A par de João Gonçalves, mais dois agricultores tinham, ao final da tarde, as bancas praticamente vazias. "Você devia era ter vindo de manhã!" atreveu-se a sorridente Maria de Lurdes, a única mulher do grupo. "Então você vai-me fotografar os exemplares menos bons que tive hoje?", arriscou, em tom de brincadeira, claramente satisfeito com o negócio, José Vieira.

A título de curiosidade, este ano no arraial, o Cocktail à Soutelo voltou a ser a 'bebida oficial', utilizando Melão Casca de Carvalho da produção local. Para a criação da bebida são usadas as 'sobras' dos produtores, ou seja, os melões menores, que acabam por revelar-se uma surpresa agradável!

Já sabe, se aprecia estefruto tão em voga na culinária e hiper saudável, e se quer surpreender os amigos com um 'toque' picante no palato, aproveite até finais de setembro para passar pela estrada nacional junto ao Mosteiro do Alívio e leve o seu exemplar...


FP

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