Rota 2012: Da recriação ao vivo, ao Museu do Linho

Uma rara espadelada do linho foi hoje (1 set), pelo terceiro ano consecutivo, recriada pelas mulheres da Associação Cultural e Recreativa de Marrancos, nas instalações da antiga escola primária da freguesia, infraestrutura que dará  lugar, oficialmente a partir de Abril de 2013, ao primeiro Museu do Linho em Portugal, uma aposta do Município de Vila Verde, da Junta de Freguesia de Marrancos, mas acima de tudo da associação, através do seu presidente e grande impulsionador cultural, Abílio Ferreira.




Aquele que será o futuro Museu do Linho, o primeiro em Portugal dedicado exclusivamente à recriação do seu ciclo, abriu hoje portas aos visitantes, exibindo o seu espólio completo, da semente ao tecido. Instrumentos, artefactos, ferramentas, panos, toalhas, peças de roupa, Lenços de Namorados e o linho, nas suas diversas fases de transformação, a par de figuras humanas, disformes ainda, e que serão substituídas por manequins simulando os trabalhos junto dos principais artefactos, são alguns dos pontos de interesse deste futuro museu, a par centenas de fotos de recriações de espadelas tiradas nos últimos anos no concelho e de uma projeção de diversas imagens, logo à entrada do edifício.

O futuro museu será dividido essenciamente em três partes: o Museu onde estará instalado o espólio, a exposição fotográfica, numa galeria que outrora foi o átrio traseiro da escola, e uma pequena sala de multimédia, destinada a passar filmes didáticos para a comunidade escolar que documentem as várias fases do complexo ciclo do linho e os múltiplos instrumentos envolvidos nas várias fases, seus nomes e funções.

A inauguração do Museu está prevista para Abril de 2013. Esta data foi avançada por Júlia Fernandes, vereadora da Cultura, Educação e Acção Social do município de Vila Verde, que marcou presença na recriação da Espadelada."Entre março e abril. É para esta data que vamos trabalhar", assegurou a vereadora, entusiasta da ruralidade. Uma das razões para a escolha desta data é coincidir com a sementeira do linho galego, um dos momentos mais marcantes no arranque do ciclo, a par da sementeira do linho mourisco, que acontece em outubro.


Espadelada do Linho: uma jornada de alegria

Espadelar o linho é, por estas bandas, um trabalho encarado com saudosismo e alegria, esquecendo a dureza de outros tempos, quando era feito por obrigação. São as mulheres mais velhas da associação recreativa e cultural de Marrancos quem guarda ainda memórias dos tempos em que se ripava, sarilhava ou fiava o linho.

As mais jovens fazem-no "por amor à terra e pela preservação das tradições locais", como Sofia Rodrigues, que aprendeu a espadelar propositadamente para este tipo de recriações "e porque está indiretamente ligada à minha área: sou engenheira textil". O que mais impressiona esta jovem, que já não é do tempo em que o linho fazia-se à mão, é "a paciência e engenho do Homem, a par da perfeição da natureza".

Maria Emília Magalhães aprendeu a ripar jovem, mas confessa que aprimorou a técnica desde que entrou para o Rancho Folclórico da terra. "Os meus pais semeavam, mas produzíamos muito pouquinho, só para consumo da casa: lençois, camisas, sacos... fazia-se tudo. A minha mãe fiava, eu só ripava, mas para o resto chamava-se mulheres de fora", recorda. "Acho que já ripei mais desde que entrei para o rancho do que no resto da minha vida toda", brinca a senhora, que faz parte do Rancho Folclórico há uma dúzia de anos.

Quem sofreu na pele as 'agruras' dos tempos em que "fiar era uma obrigação" foi Judite Caridade, uma das mais idosas de todo o grupo. Com mestria,vai transformando o tosco emaranhado de erva, num irrepreensível fio humedecido pela própria saliva que enrola num carrinho. Este é um dos segredos da fiação do linho. "Antigamente a minha mãe não me deixava ir pra cama enquanto não fiasse às quatro e cinco meadas de linho. E nem lume tínhamos para nos aquecer os pés", recorda a idosa, que hoje fia por recreio.

As espadelas do linho eram apenas executadas por mulheres, que se juntavam para tornar a erva mais sedosa e pronta a fiar. Aos homens estava vedada a entrada, para não as distrairem do trabalho. Mas esta 'regra' era quebrada, à noite, pelos máscaras, jovens aldeões que se mascaravam para ninguém os reconhecer, e invadiam os locais onde as moças espadelavam, para semearem o caos e aproveitarem-se delas. A par deste momento divertido, toda a jornada de trabalho era pautada por cantares antigos ligados à terra.

Nesta tarde também houve máscaras (interpretados por duas crianças), cantares e concertinas das gentes da terra que animaram as mais de dez mulheres que perante um calor abrasador, recriaram as prinicipais fases da transformação do linho. Esta foi a terceira recriação de uma espadelada, que arrancou, em 2010, com a programação Na Rota das Colheitas,uma das mais carismáticas atividades da iniciativa. À espadelada em Marrancos assistiram ao vivo dezenas de pessoas, que aproveitaram ainda para visitar aquele que será o futuro Museu do Linho.

FP